Gabriel García Márquez certa vez afirmou que um autor escreve sempre o mesmo livro
Por Paulo Sales
Publicado em 28 jun 2026 às 05:03
LivrosCrédito: Pexels
Gabriel García Márquez certa vez afirmou que um autor escreve sempre o mesmo livro, não importa quantos títulos publique. Cada nova publicação seria um capítulo a mais de uma obra única e indivisível. Um inventário de obsessões que se sucedem indefinidamente, por mais que variem os enredos, épocas e personagens. Partindo desse pressuposto, é possível que o autor colombiano tenha passado suas últimas três ou quatro décadas reescrevendo Cem Anos de Solidão e o batizando com nomes como O Amor nos Tempos do Cólera ou Memória de Minhas Putas Tristes.
Admiro esses homens e mulheres que, como Gabo, dedicam boa parte dos seus dias a transformar palavras em pétalas de alumbramento, ainda que se repitam inconscientemente. Michel Houellebecq é quase um monotemático, Annie Ernaux também. Emmanuel Carrère recorre aos mais diferentes assuntos e personagens para abordar um único tema: ele mesmo. Chegou ao ponto de dar a um de seus livros (talvez o melhor deles) o curioso título Outras Vidas que Não a Minha, para se diferenciar dos demais.
Não sei por que motivo citei três franceses, mas foram os que vieram logo à mente. Entre os mais antigos, poderia assegurar que Borges deu à luz um enorme e único calhamaço que contém em suas páginas o infinito. Um livro de areia sem fim nem começo que nos locupleta de fascínio. Já Kafka engendrou diferentes facetas de um só pesadelo: sombrio, opressivo, incompreensível. E Faulkner fez do sul profundo estadunidense sua divina tragédia humana, território hostil de contornos bíblicos onde nos embrenhamos e nos perdemos.
Abandono o Olimpo onde esses demiurgos reinam absolutos e me transporto ao mundo ordinário, minúsculo e insignificante da minha Liliput particular. Este mês, completo sete anos escrevendo para o Correio. Desde junho de 2019, foram centenas de crônicas publicadas neste espaço. Em sua maioria, textos triviais, despropositados, que encerram um curto estoque de obsessões. Afinal, sou um monotemático como Houellebecq (as semelhanças param por aí). É como se retirasse sempre os mesmos fardos dos ombros e os colocasse na tela, para na crônica seguinte repetir esse processo.
Às vezes me pergunto de que adianta regressar aos mesmos argumentos, temores e desilusões numa lamúria sem fim. Como compreender ou abarcar o mundo se quanto mais escrevo, menos racional ele se desvela? Devo cansar meus poucos leitores com argumentos e indagações que apenas expõem a ferida, mas não oferecem tratamento para a sua cicatrização. Ainda assim, prossigo. Acima de tudo porque as crônicas também me permitem dividir impressões com pessoas interessantes, algumas das quais não conheço. Gente que comenta, compartilha, elogia, discorda, aponta caminhos ou apenas lê em silêncio.
Nos últimos sete anos, o Brasil e o mundo padeceram de uma pandemia e da perda progressiva da razão, entremeadas por breves lapsos de esperança. De minha parte, fiquei com mais cabelos brancos e mais indagações sem respostas. Afinal, amadurecer é também se desfazer de certezas. Dos 49 aos 56 anos, algumas convicções se evaporaram, outras se sedimentaram e a vida prosseguiu. O que penso dela está registrado aqui a cada quinzena. E, a partir de agora, também em um novo livro.
Uma Breve Fenda de Luz (Editora Litteralux) reúne minhas crônicas preferidas escritas nos últimos quatro anos. É o meu terceiro título publicado – ou seria o novo capítulo de uma mesma obra? Nele se amontoam devaneios e confissões de um homem que tateia no escuro em busca de uma lanterna, um lastro no qual apoiar seus questionamentos e suas dúvidas mais avassaladoras. O lançamento vai acontecer no próximo dia 8 de julho, a partir das 19h30, no Espaço Cultural Oito Imagem (Rua Dinah Silveira de Queirós, nº 6, Condomínio Quinta do Candeal – Horto Florestal). Apareçam.