Muito além das medalhas: projeto de karatê transforma vidas e já formou advogado, legista e centenas de jovens em Salvador
Há mais de duas décadas, a Associação de Karatê Adilson Charles (ASKAC) oferece aulas gratuitas para crianças, jovens e pessoas com deficiência
Por Perla Ribeiro
Publicado em 29 jul 2026 às 18:48
Muito além das medalhas: projeto de karatê transforma vidas e já formou advogado, legista e centenas de jovens em SalvadorCrédito: Divulgação
Socos, chutes e movimentos precisos fazem parte da essência do karatê. Mas, em um projeto social de Salvador, o golpe mais importante acontece longe dos tatames. Há mais de 20 anos, a Associação de Karatê Adilson Charles (ASKAC) usa a arte marcial como ferramenta de inclusão, educação e cidadania para transformar a vida de crianças, jovens e adultos das comunidades de Cajazeiras, Fazenda Grande, Castelo Branco e região.
Ao longo dessa trajetória, o esporte ajudou a mudar destinos. Entre os exemplos lembrados pelo fundador da associação estão dois jovens que chegaram ao projeto com dificuldades de comportamento e baixo rendimento escolar. Anos depois, um deles tornou-se advogado, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), enquanto a outra seguiu carreira como legista no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.
Fundada em 21 de novembro de 2001 pelo sensei e kyoshi Adilson Charles Matos da Silva, a ASKAC reúne mais de duas décadas de atuação oferecendo oportunidades por meio do esporte. O projeto tornou-se referência não apenas pelos resultados em competições, mas pelo impacto social gerado nas comunidades onde atua.
Um dos principais diferenciais da associação é o trabalho voltado à inclusão. Crianças, adolescentes, adultos e pessoas com deficiência visual, auditiva ou motora participam de aulas adaptadas, desenvolvidas para respeitar as necessidades e os limites de cada praticante. A proposta é fazer do karatê um instrumento de integração, fortalecimento da autoestima e superação.
A trajetória do fundador se confunde com a da própria instituição. Aos 55 anos, completados nesta quarta-feira (29), Adilson acumula 38 anos dedicados ao karatê e mais de 25 anos de trabalho voluntário na comunidade. Ex-aluno da Escola Arlete Magalhães, ele conta que decidiu ensinar a modalidade ainda jovem, logo após conquistar a faixa preta.
Segundo o mestre, retornar à escola onde estudou foi a oportunidade de transformar um sonho em realidade. Desde então, o objetivo sempre foi usar o esporte para abrir caminhos e oferecer novas perspectivas para crianças e adolescentes. Além dos treinos, a associação mantém um forte compromisso com a educação. As aulas são gratuitas e acontecem aos sábados para crianças a partir dos quatro anos. Para participar do projeto, é preciso estar regularmente matriculado na escola.
O desempenho dentro da sala de aula também faz parte da proposta. Todos os anos, os três alunos com as melhores notas recebem o prêmio "Boletim de Ouro", criado para incentivar o compromisso com os estudos e reconhecer quem alia dedicação ao esporte e à educação. Embora a formação cidadã seja o foco da iniciativa, os resultados esportivos também chamam atenção. Sob a liderança de Adilson Charles, a ASKAC conquistou espaço entre as principais equipes da modalidade na Bahia.
O fundador reúne mais de 15 títulos nacionais individuais, enquanto os atletas da associação acumulam conquistas em competições estaduais e nacionais. Em 2025, o projeto alcançou o heptacampeonato baiano, levantando pela sétima vez consecutiva o troféu do Campeonato Baiano de Karatê. No mesmo ano, a equipe voltou do Campeonato Brasileiro, disputado em Gravatá (PE), com 24 medalhas.
Ao longo de 25 anos, a ASKAC ultrapassou os limites do esporte e passou a representar um espaço de acolhimento para centenas de famílias de Castelo Branco e bairros vizinhos. Além do treinamento esportivo, o projeto oferece suporte social, emocional e educativo, fortalecendo valores como respeito, responsabilidade e convivência.
Para Adilson Charles, no entanto, os troféus ocupam um lugar secundário diante da missão construída ao longo de mais de duas décadas. "Nosso maior objetivo é formar caráter. O respeito, o autocontrole e a ética são fundamentais. O esporte resgata vidas, e enquanto Deus me der força, vou continuar com esse projeto", afirma o fundador da ASKAC.