Falar sobre quem somos e o que fazemos não é vaidade, mas uma forma de permitir que pessoas, encontros e oportunidades nos encontrem
Por Gabriela Cruz
Publicado em 19 jul 2026 às 14:55
De tudo que eu vejoCrédito: Imagem feita com IA
Passei muito tempo acreditando que o melhor era deixar que as pessoas descobrissem sozinhas quem eu era.
Não por insegurança com o meu trabalho. Talvez por uma mistura de discrição, vergonha e medo de parecer vaidosa. Eu desenhava, pintava e vendia minhas ilustrações, mas quase nunca falava sobre isso. Imaginava que, se comentasse, alguém poderia se sentir constrangido, por educação, a elogiar ou até comprar alguma coisa.
Então eu preferia o silêncio. Achava melhor deixar que tudo acontecesse de forma espontânea.
Só que havia um problema: Como poderiam lembrar do meu nome se eu mesma nunca o associava ao que fazia?
Demorei para entender que existe uma diferença enorme entre autopromoção e comunicação. Autopromoção é tentar convencer as pessoas de que você é melhor do que os outros. Comunicação é apenas permitir que elas saibam quem você é e o que faz.
De Tudo que Eu Vejo
Vivemos repetindo que as oportunidades aparecem. Mas elas também dependem de uma condição muito simples: alguém precisa saber que você existe.
Foi quando comecei a ler sobre narrativa, marca pessoal e construção de presença que percebi uma coisa óbvia, mas transformadora: as pessoas não adivinham. Elas conectam informações.
Se você nunca diz que fotografa, dificilmente será lembrado quando alguém precisar de um fotógrafo. Se nunca comenta que dá aulas, ninguém vai indicar seu nome. Se nunca conta que escreve, pinta, cozinha, empreende ou presta consultoria, o mundo simplesmente segue sem essa informação.
E isso vale muito além das redes sociais.
Na verdade, a maior mudança aconteceu na vida presencial.
Passei a falar com mais naturalidade sobre o que faço. Sem transformar cada conversa em uma vitrine, mas também sem esconder uma parte importante de mim. Apenas deixando que as pessoas soubessem.
Foi curioso perceber o que aconteceu depois.
As oportunidades começaram a surgir.
Alguém dizia: "Eu não sabia que você fazia isso."
Outra pessoa lembrava de alguém que estava procurando exatamente aquele serviço.
Quem já conhecia meu trabalho finalmente entendia como poderia adquirir um desenho, um quadro ou uma ilustração.
Nada daquilo aconteceu porque eu me tornei melhor da noite para o dia.
Aconteceu porque, finalmente, as pessoas tinham informação suficiente para me conectar às oportunidades.
Às vezes chamamos isso de sorte. Outras vezes, de sincronicidade.
Mas talvez exista uma explicação mais simples.
A vida cria encontros o tempo todo. O que ela precisa são pistas.
Quando contamos ao mundo quem somos e o que fazemos, aumentamos as chances de que essas conexões aconteçam. Não porque estejamos forçando oportunidades, mas porque deixamos de ser invisíveis para elas.
Durante muito tempo, achei que ocupar pouco espaço era uma forma de delicadeza. Hoje penso diferente. Existe uma delicadeza que aproxima. E existe um silêncio que apaga.
Aprendi que falar sobre o próprio trabalho, quando feito com verdade, não é vaidade. É disponibilidade. É dizer ao mundo: "Se um dia você precisar disso, agora sabe onde me encontrar."
Talvez muitas das coincidências que tanto nos encantam comecem exatamente aí: quando deixamos de esperar que descubram quem somos e temos a coragem de oferecer uma pista.
SPEAK YOURSELF
Em 2018, ao discursar na Assembleia Geral da ONU, Kim Namjoon, líder do BTS, fez um convite que continua atual: "Speak yourself" ("Fale sobre você mesmo"). Ao contar a própria história, ele lembra que passou anos tentando se encaixar nas expectativas dos outros até entender que sua voz também tinha valor. Vale assistir aos seis minutos do discurso. Ele conversa diretamente com a reflexão desta coluna: às vezes, a vida só consegue nos encontrar quando temos coragem de dizer quem somos.
AUTORIA EM TEMPOS DE IA
A polêmica envolvendo a influenciadora Karen Bachini e seu clube de assinatura de papelaria levantou uma discussão importante para quem trabalha com criatividade. Mais do que o uso da inteligência artificial, o debate gira em torno da autoria e da transparência. IA pode ser uma ferramenta poderosa no processo criativo. O problema começa quando ela ocupa o lugar da identidade do artista. Criar nunca foi tão fácil, mas talvez o verdadeiro diferencial continue sendo aquilo que nenhuma tecnologia consegue copiar: uma linguagem própria.
PINTAR MEMÓRIAS
Em tempos de telas, a CAIXA Cultural Salvador propõe um exercício de desaceleração. A oficina Cotidiano e Afeto: Pintura em Pratos de Porcelana, no dia 25 de julho, convida os participantes a criarem uma peça autoral inspirada nas louças do acervo arqueológico da instituição. Mais do que aprender uma técnica, é um convite para transformar lembranças e histórias em objeto. As inscrições são gratuitas.
MODA COM IDENTIDADE
O Fala Artes e Design, na Rua Chile, traz como destaque a coleção-exposição “A Anatomia do Invisível”, da estilista e artista têxtil Ticiana Hoisel. Promovida por Tânia Póvoa, gestora do espaço, e Biam Dhifá, curador, a mostra reúne moda autoral, arte têxtil e upcycling. A coleção exibida valoriza técnicas tradicionais, como renda de bilro, crochê, ponto cruz e bordados manuais, além do trabalho de artesãs brasileiras e paraguaias. Com tecidos reaproveitados e transformados, as peças unem sustentabilidade e criação artística, reforçando o valor do fazer manual e da identidade presente em cada criação.
Coleção-exposição “A Anatomia do Invisível”, da estilista e artista têxtil Ticiana HoiselCrédito: Gabriela Cruz
CORPO COMO LINGUAGEM
Depois de assinar a direção de movimento da exposição Fútbol 2026, da fotógrafa Annie Leibovitz, o coreógrafo baiano Jorge Dorsinville acaba de dirigir o movimento do desfile de alta-costura de Robert Wun, em Paris. Seu trabalho é um bom exemplo de que nem toda autoria está no traço ou na palavra. Às vezes, ela acontece no corpo, transformando gestos e movimentos em parte da narrativa de uma coleção.
Jorge Dorsinville fez a direção de movimento do desfile do estilista Robert WunCrédito: Divulgação
BORDAR O QUE SOMOS
A professora de bordado e arte têxtil Dôra Araújo retomou o projeto O Vestido de Boneca como Suporte para Sensibilidades, em uma roda de bordado contemporâneo. O primeiro encontro da nova temporada aconteceu no sábado (18), no Ativa Atelier Livre, no Rio Vermelho. A proposta transforma pequenos vestidos de boneca em suporte para memórias, afetos, poemas, protestos e narrativas pessoais. Mais do que ensinar uma técnica, o encontro convida cada participante a inscrever no tecido algo de si. As peças produzidas integrarão uma instalação coletiva. O próximo momento será divulgado em breve.