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ENTREVISTA EXCLUSIVA

'Virou terapia em grupo': Colomy lança 'Pra Quem Andou Perdido' e transforma feridas abertas em recomeço

No segundo álbum de estúdio, trio paulista-gaúcho convoca ídolos de diferentes gerações e assina um trabalho visceral sobre vulnerabilidade, caos e amizade

Por Ana Beatriz Sousa

Publicado em 30 jul 2026 às 05:33

Banda Colomy
Banda Colomy Crédito: Felipe Campos
Tem discos que nascem de uma ideia. 'Pra Quem Andou Perdido', segundo álbum da Colomy, nasceu de três pessoas afundadas em crises pessoais que, sem muita escolha, resolveram gravar tudo isso junto. "A gente tava tão fodido nas nossas vidas pessoais que aquelas gravações viraram tipo uma terapia em grupo", resume o baterista Eduardo Schuler, sem meias palavras. O resultado desse processo chega hoje, dia 30 de julho, às plataformas pela Universal Music, e carrega no título a promessa que só faz sentido para quem já se sentiu sem chão: sempre existe uma travessia possível entre o fim de alguma coisa e o recomeço de outra.
Criada em 2021, a banda Colomy constrói uma ponte sonora singular. De um lado estão os gaúchos Pedro Lipa (voz e guitarra) e Eduardo Schuler (bateria) carregando influências da música sulista e do rock argentino. Do outro, o paulistano Sebastião Reis, filho do cantor Nando Reis, que cresceu imerso na MPB e no pop rock brasileiro - e é essa mistura de referências, dizem eles, que dá identidade à banda sem que isso seja um esforço.
"A gente não tenta muito misturar e acaba acontecendo tudo sozinho", explica Pedro Lipa. Schuler completa: às vezes eles só percebem uma influência escondida numa faixa quando já estão revisando o disco pronto, faixa a faixa, e se surpreendem com o que sai "internalizado desde criança". Sebastião concorda e devolve o elogio aos parceiros: "É muito bom poder compartilhar essa mistura com meus amigos", diz, lembrando que foi Pedro quem trouxe pra banda a paixão por Paralamas do Sucesso como referência de pop rock brasileiro.
Banda Colomy
Sebastião Reis, Pedro Lipa e Eduardo Schuler Crédito: Felipe Campos
O primeiro álbum, 'Jaú' (2023), foi concebido num sítio no interior paulista durante a pandemia, ainda que parte da gravação tenha acontecido em São Paulo. Já 'Pra Quem Andou Perdido' foi composto entre 2023 e 2024, direto na cidade grande, e tem sonoridade mais urbana. A diferença também está no método: se no primeiro disco a banda buscava letras que coubessem em melodias já prontas, desta vez o processo se inverteu. "As melodias e as letras meio que guiaram o caminho pra onde as músicas iriam", diz Pedro Lipa. "Não foi um disco que a gente pensou 'vamos fazer um disco'. Não. Ele surgiu." As músicas nasceram de coisas que os três estavam vivendo de verdade -sem eu lírico, sem personagem, sem enfeite. Como resume o próprio Pedro: "Esse disco não tem um eu lírico, ele tem um eu eu. É um eu de verdade."
Foi um processo de exposição, e os três admitem que não foi fácil, mas também não foi só dor o tempo todo. "Muita choradeira", resume Pedro Lipa sobre as sessões, que colidiam direto com os momentos que motivaram as próprias músicas. "A gente tá contando uma parte da história, e aí dói." Mas o produtor Dudinha, dizem eles, trazia "um monte de ideia maluca" que equilibrava o peso emocional com uma boa dose de diversão. Sebastião fala da amizade como rede de apoio dentro do estúdio: gravar já é um momento de se expor, "você respira no microfone, é escutado" - e ter os outros dois ali perto tornou esse processo mais suportável, "chorar junto, outro vai lá, te ajuda". "Viver uma banda com os caras me faz feliz, me facilita gravar", resume Sebastião. "Você poder confiar nos seus amigos e se abrir, isso é bom de ter numa banda." Produzido por Dudinha, com engenharia de som de Tofu e apoio de Otávio Bonazzi e Thiago Baggio, o disco foi mixado por Ricardo Mosca e masterizado por Felipe Tichauer, da RedTraxx Mastering.
Banda Colomy
Sebastião Reis, Eduardo Schuler e Pedro Lipa   Crédito: Felipe Campos
Entre as nove faixas, três participações dão ao álbum um peso simbólico de continuidade geracional. Guilherme Arantes toca piano elétrico CP70 e piano no refrão de 'Se Ainda Existe Amor' - nome que, segundo Schuler, tinha um disco autografado em casa da mãe de Pedro Lipa: "Ídolo dos nossos pais, e a gente tá gravando com ele. Muito foda, sabe?" Peter Buck, do R.E.M., grava guitarra de 12 cordas na melancólica 'Rádio', fruto de uma amizade construída em turnê. E Barrett Martin, baterista do grunge de Seattle (Screaming Trees, Mad Season), também assina uma participação. Sebastião resume a sensação de gravar com eles como algo que talvez nunca "caia a ficha" de verdade, mais do que nomes grandes, são pontes: ídolos dos pais virando parceiros de estúdio dos filhos.
A faixa-título, penúltima do disco, foi também a mais difícil de fechar. "Ela foi uma das últimas a ser concluída e o disco precisava de uma música de alívio", conta Pedro Lipa, que por acaso acabou virando o nome do álbum e o single principal. A ordem das nove faixas não foi acaso, e também não foi pacífica. "Deu briga, deu briga!", dizem os três em coro ao lembrar do processo. Sebastião ri da vantagem de ser um trio: "se dois concordam, já é um voto vencido." A banda pensou a sequência quase como uma ópera-rock, com início, meio e fim - mesmo sem intenção de contar uma história de personagem, porque o personagem, dizem, são eles três.
Narrativamente, o disco funciona como uma jornada guiada pelo arco de "fim, travessia e recomeço". A movimentada 'Carona Singular' abre o álbum, que passa pelo frescor agridoce de 'Causas Naturais' e pela delicadeza de 'Nunca Se Esqueça de Amar', mergulha no desolamento de 'Rádio' e percorre a densidade e a despedida de 'Tchau', música de autoria de Bebeto Nunes lançada em 2008, e 'Eu Tive Que Matar Você'. O percurso ganha contornos de saudade e intimidade em 'Se Ainda Existe Amor', desemboca no respiro de 'Pra Quem Andou Perdido' e se encerra com a libertadora 'Tudo Vale o Ingresso'.
Para Schuler, a mensagem do álbum é simples: "Independente do caos, sempre há uma luz no fim do túnel - mesmo que seja de LED", conta rindo. Ele ilustra essa ideia lembrando da dica que recebeu de um amigo quando perguntou como começar a correr, e a resposta foi direta - "abre a porta e sai correndo." "E a real é essa, sabe? No final a gente tá batido, derrubado, mas vamos se reerguer com as duas pernas e vambora", resume. Pedro completa a piada: "E se não tiver força de vontade pra sair de casa correndo, aí tu pode simplesmente xingar um policial que tu vai ser obrigado a correr."
Banda Colomy
Sebastião Reis, Pedro Lipa e Eduardo Schuler  Crédito: Felipe Campos
A leveza também aparece quando o assunto é a própria dinâmica do trio. Perguntados sobre qual objeto deixariam esquecido na casa de alguém para nunca serem esquecidos, Schuler não hesita: "um perfume." Sebastião completa: "eu ia deixar um anel." Pedro trava, pensa, e arrisca: "uma palheta." A resposta unânime da banda, entre risos, é que ninguém seria esquecido por causa disso mesmo. Sobre o próprio convívio, a definição que os três aceitam é quase carinhosa: "Todos são chatos, todos são mal-humorados também, mas todos são gente boa pra caralho." Schuler, que os próprios colegas de banda descrevem como o mais visceral do trio, não nega: "É o coração da banda", brinca.
Ao vivo, esse capítulo começa em 20 de agosto, no Rockambole, em São Paulo, quando a banda toca o disco inteiro pela primeira vez. Dali em diante, a ideia é levar o álbum a outras capitais, uma data em Santa Catarina já está sendo fechada, e Salvador está no radar, ainda sem confirmação, "a gente gostaria muito de fazer", garantem. A logística não é simples, o trio também toca na banda de Nando Reis, e conciliar as agendas das duas turnês vai exigir jogo de cintura.
No fim, o disco pede pouco: que quem ouvir chore nas primeiras faixas e saia de casa nas últimas. "Um alívio muito grande e uma vontade de sair de casa e viver a vida", descreve Pedro Lipa sobre o efeito esperado da faixa final - "mas até chegar lá, espero que durante as primeiras cinco ou seis músicas as pessoas chorem bastante", completa, rindo.
Questionados sobre qual conselho dariam para quem está perdido, o conselho da banda também é sem fórmula, Sebastião fala em se olhar no espelho, Pedro Lipa aposta em saúde, família e amigos, e Schuler defende viver a desgraça até o fim: "É ali que começa a conscientização de que isso está uma merda e eu preciso sair daqui." Não é um disco sobre superar rápido. É sobre atravessar devagar, rindo no meio do caminho quando dá, com quem se ama por perto - e sair do outro lado inteiro o suficiente pra tocar de novo.
Sebastião resume esse momento da banda como parte de um processo natural de amadurecimento: no primeiro disco, diz ele, você se descobre e se entende; no segundo, a banda se acha; e ele já brinca que, no terceiro, vai olhar pra trás, perceber que "não, tinha nada a ver" com o disco anterior e pensar: "caramba, chegamos num lugar mais foda, sabe?" Para ele, esse disco também é um espelho pessoal: "Agora eu sei o que eu errei, o que eu posso fazer melhor - acho que isso ajuda a gente a se achar."
  • Lista de faixas:
    1. Carona Singular
    2. Causas Naturais
    3. Nunca Se Esqueça de Amar
    4. Rádio
    5. Tchau
    6. Eu Tive Que Matar Você
    7. Se Ainda Existe Amor
    8. Pra Quem Andou Perdido
    9. Tudo Vale o Ingresso

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