Museu e literatura: os novos lados pouco explorados da Academia de Letras da Bahia
As paredes do histórico Palacete Góes Calmon atravessam um momento de renovação que perpassa suas intervenções centenárias
Por Vanessa Brunt
Publicado em 30 jul 2026 às 05:03
Novos lados pouco explorados da Academia de Letras da BahiaCrédito: Aleilton Fonseca/Divulgação
As paredes do histórico Palacete Góes Calmon atravessam um momento de renovação que perpassa suas intervenções centenárias. Casa da Academia de Letras da Bahia (@academiadeletrasdabahia), uma das instituições culturais mais tradicionais do país e guardiã de parte significativa da memória literária do estado, o espaço vive uma fase marcada pela restauração de ambientes, digitalização de acervos, ampliação de cursos e intensificação de atividades abertas ao público. Mas há algo que escapa aos relatórios e cronogramas: a sensação de que a história, ali, continua em movimento.
Entre salões que testemunharam décadas de encontros intelectuais, obras de arte que surpreendem até os visitantes mais atentos e corredores onde diferentes gerações de escritores deixaram suas marcas, a Academia preserva mais de 30 mil obras e um patrimônio que ultrapassa os limites da literatura. O local reúne ambientes museológicos, peças históricas e registros que ajudam a contar não apenas a trajetória intelectual baiana. São fragmentos da própria formação cultural do estado.
Sob a presidência do escritor Aleilton Fonseca, a instituição busca ampliar sua conexão com novas gerações de leitores, pesquisadores e estudantes com projetos que tornam seu patrimônio mais acessível. Enquanto abrem janelas, preservam as portas mais fechadas a partir da rigorosidade dos ritos, critérios e tradições que moldaram sua relevância ao longo de mais de um século, mantendo vivo um equilíbrio delicado entre permanência e renovação.
Em um tempo em que a velocidade frequentemente ameaça a memória, a Academia de Letras da Bahia segue na aposta da preservação do conhecimento, na formação cultural e na valorização do pensamento.
Confira alguns dos destaques dessa nova fase onde passado, presente e futuro seguem a dialogar.
Mais do que livros: museu da cultura baianaCrédito: Vanessa Brunt/CORREIO
1. Mais do que livros: museu da cultura baiana
A Academia de Letras da Bahia guarda um dos patrimônios culturais mais relevantes do estado. O Palacete Góes Calmon, agora tombado, é imerso em natureza centenária e reúne mais de 30 mil obras em seu acervo, atualmente em processo de digitalização e catalogação.
Mas o espaço vai além da literatura ou até mesmo das belas árvores anciãs. Recém-revitalizado, ele abarca ambientes preservados com móveis históricos, arquitetura neoclássica, pinturas, peças decorativas de época, louças raras e diversos elementos que ajudam a contar capítulos importantes da formação cultural baiana.
Entre as curiosidades estão itens que exibem a trajetória de Edith Mendes da Gama e Abreu, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia. A instituição foi uma das pioneiras do país ao admitir uma escritora em seu quadro, movimento que antecedeu transformações semelhantes em outras academias brasileiras.
Ali mora, ainda, uma fonte com mais de dois séculos de existência e diversos itens de valor histórico distribuídos ao longo do palacete.
Cursos híbridos e uma nova fase de formação literáriaCrédito: Vanessa Brunt/CORREIO
2. Cursos híbridos e uma nova fase de formação literária
A ALB vive um momento de ampliação das suas atividades educacionais e culturais. Entre os destaques está o tradicional Curso Castro Alves, voltado para literatura e cultura baiana, além de debates, conferências e encontros que já somam mais de mil apresentações em apenas uma das iniciativas ao longo de sua trajetória.
Outro projeto que deve ganhar novas edições é o Curso Jorge Amado, que amplia as discussões para a literatura brasileira e universal.
As atividades acontecem em formato híbrido, permitindo participação presencial e online. Os participantes recebem certificados proporcionais à carga horária cursada, o que amplia o acesso de estudantes, pesquisadores e interessados em literatura de diferentes regiões.
A gestão de Aleilton Fonseca e os novos projetosCrédito: Academia de Letras da Bahia/Divulgação
3. A gestão de Aleilton Fonseca e os novos projetos
Escritor, professor universitário e pesquisador, Aleilton Fonseca assumiu a presidência da Academia de Letras da Bahia trazendo propostas voltadas para preservação, modernização e ampliação do alcance da instituição.
Primeiro presidente oriundo do sul da Bahia a comandar a Academia, Fonseca lidera iniciativas como a revitalização do Palacete Góes Calmon, a digitalização do acervo bibliográfico e a ampliação do diálogo com diferentes gerações de leitores, escritores e pesquisadores.
Entre os projetos discutidos pela atual gestão estão a retomada de iniciativas históricas da instituição, novas ações de incentivo à literatura e uma presença cada vez mais ativa junto à comunidade acadêmica e cultural.
O Palacete Góes CalmonCrédito: Vanessa Brunt/CORREIO
4. O Palacete Góes Calmon, sua importância histórica e possibilidade de eventos
As recentes obras de restauração permitiram recuperar detalhes arquitetônicos e ampliar a preservação de um patrimônio que lembra os palácios universais e integra a história intelectual da Bahia.
Uma das novas iniciativas da ALB é também abrir portas do local para possíveis eventos, como casamentos. Varandas amplas, jardins, salas vastas, escadarias clássicas e trabalhos refinados em gesso e madeira trazem sensação de palácio em cena cinematográfica.
É belo observar como a sede da Academia ocupa essa história: a de um dos edifícios mais emblemáticos do centro histórico da capital. O Palacete Góes Calmon, tombado pelo patrimônio histórico, já foi residência do ex-governador Góes Calmon e permanece como uma das construções mais elegantes do período republicano baiano.
Com arquitetura marcante e agora ambientes cuidadosamente preservados, o imóvel traz mergulho se tornou também um espaço de memória. Salas de reunião, ambientes de votação acadêmica e espaços de convivência ajudam a preservar tradições que atravessam gerações.
Visitas guiadas, pesquisa e acesso ao acervoCrédito: Vanessa Brunt/CORREIO
5. Visitas guiadas, pesquisa e acesso ao acervo
Apesar de muitas pessoas associarem a Academia apenas aos seus membros, a instituição mantém atividades abertas ao público.
Visitas guiadas podem ser realizadas mediante programação divulgada pela Academia, incluindo grupos, caravanas culturais, estudantes e interessados em conhecer o patrimônio histórico e literário do local.
A instituição também oferece atendimento a pesquisadores, estudantes e estudiosos que necessitam consultar obras e documentos do acervo. O processo de digitalização em andamento deve ampliar ainda mais o acesso ao conteúdo preservado pela ALB.
A programação cultural, os cursos e as informações sobre visitas podem ser acompanhados pelos canais oficiais da instituição, como site e Instagram: @academiadeletrasdabahia.
Assessora da ALB Márcia Moreira, escritora e colunista do CORREIO Vanessa Brunt, presidente da ALB Aleilton FonsecaCrédito: Vanessa Brunt/CORREIO
Um novo capítulo para a literatura baiana
Entre patrimônio histórico, preservação da memória, formação de leitores e novos projetos culturais, a Academia de Letras da Bahia amplia sua renovação sem abrir mão da tradição que a posiciona como uma das instituições culturais mais importantes do país.
Fui recentemente convidada a participar mais de perto da vida artística da Academia como escritora. Esse movimento exibe o desejo de abrir portas para a nova geração de autores relevantes do estado, um diálogo que ajuda a manter viva uma das maiores riquezas da Bahia: a sua produção cultural.