Terminei comovido a leitura de O Colibri, do italiano Sandro Veronesi. O romance acompanha a vida de um homem banal, de nome Marco Carrera: oftalmologista, viciado em jogo na juventude, mal casado, assombrado por um amor nunca consumado. De maneira fragmentária e repleta de saltos temporais, testemunhamos o desenrolar dessa existência ordinária: sua relação com a família, seus titubeios e sua falta de rumo.
Mas não é apenas sobre isso. À medida que avançamos, fica claro que Veronesi compõe uma obra sobre o luto e como sobreviver a ele. Em meio à paralisia advinda da ausência de quem ama, Carrera se aferra feito um náufrago a essa boia sem destino chamada viver. As perdas moldam quem ele se torna. Apelidado de Colibri na infância por seu porte diminuto, acaba se convertendo na maturidade em um pássaro que voa parado (colibri é um tipo de beija-flor). “Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?”, indaga-se.
É como se as desditas em sequência o levassem a reboque, engolfando-o com reminiscências que preferiria não evocar. Marco reflete: “De repente, tudo se tornava claro, toda a dor sentida ao longo dos anos se tornava o basalto sobre o qual se fundava o novo mundo, as lembranças se tornavam destino e o passado se tornava futuro. (...) Por que justo eu perdi uma irmã daquele modo? Por que justo a mim coube um divórcio tão terrível? Por que justo eu pus materialmente um fim à vida do meu pai? Por que justo eu enterrei uma filha de vinte e dois anos?”
Em outro trecho, retirado de uma carta a Luisa, a quem sempre amou e por quem foi inutilmente amado, ele confessa: “Se tivesse dependido de mim, sim, eu teria ficado parado, mas não foi possível, e cada mudança que sofri produziu um choque tremendo, que me tirou do chão e me arremessou em outra vida, depois em outra e em mais outra; vidas às quais eu tive de me adaptar brutalmente, sem mediações. Você entende que, para mim, é um alívio preservar o máximo de coisas possível?”
Marco preserva porque de outra forma não avançaria. O que deixou para trás é o seu combustível, daí mantê-lo por perto. É uma decisão – involuntária, talvez – oposta à que toma Julie, personagem de Juliette Binoche em A Liberdade é Azul, o lindo filme de Krzysztof Kieslowski. Ao perder o marido e a filha pequena em um acidente de carro, ela se dá conta de que só conseguiria recomeçar se infligisse a si mesma uma ruptura severa. É o luto como fratura. Desfazer-se de memórias, papéis e objetos do mesmo modo que uma cobra se despe da própria pele para continuar crescendo.
Julie, porém, irá descobrir que o passado é sua própria sombra. Ele não vai sumir, apenas ficará longe da vista, igual a uma tatuagem que ao ser removida deixa uma cicatriz pouco perceptível. “Devemos ter algo a que nos agarrar”, lhe diz um músico de rua bêbado quando ela tenta ajudá-lo. É a mesma boia a que se agarrou Marco Carrera. De maneiras distintas, ambos vão perceber que a convivência com o vazio é necessária. E que, com o passar dos anos, aquela cavidade em algum ponto indefinido do tórax acaba preenchida por um emaranhado de fibras retorcidas, feitas de resignação e saudade. Nesse momento, o luto se encerra.
Joan Didion discorre sobre o tema em O Ano do Pensamento Mágico, duro tratado sobre perda e recomeço no qual reconstitui os dias seguintes à morte súbita do marido: “Eu sei por que tentamos manter vivos os mortos. Tentamos mantê-los vivos para mantê-los conosco. Sei também que, se a gente vai continuar vivo, chega uma hora em que a gente tem que abandonar os mortos, deixá-los ir, mantê-los mortos. Deixar que eles se tornem uma fotografia em cima da mesa. Deixar que eles se tornem um nome nas contas do inventário. Soltar-se deles na água.”
É fácil? Não, é doloroso, é devastador. Há os que sucumbem, para quem prosseguir se revela tamanha tortura que não vale agarrar-se à boia. Melhor ser levado pela correnteza. E não há quem os condene. Lembro agora de um breve livro que li recentemente, chamado Morreste-me, do português José Luís Peixoto (o neologismo verbal do título é um achado). Todo ele é um rememorar do pai morto e da falta que faz. Mas Peixoto sabe que deve prosseguir: “Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus”. É o que temos, é o que resta a quem fica.