O que antes era apenas um conjunto de embarcações sem utilidade passou a fazer parte do ecossistema marinho de Gibraltar. Desde 1973, barcos antigos são deliberadamente colocados no fundo do mar para funcionar como estruturas de um recife artificial.
A iniciativa, criada pelo mergulhador Eric Shaw, transformou uma área predominantemente arenosa em um ambiente com novos espaços para abrigo, alimentação e reprodução de espécies. Ao longo das décadas, mais de 30 embarcações foram incorporadas ao projeto.
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Por que afundar barcos de propósito?
A ideia nasceu de uma característica do fundo marinho da região. Em vários pontos próximos a Gibraltar, predominava um terreno formado por areia, com poucas estruturas capazes de oferecer proteção aos animais ou servir de superfície para organismos marinhos.
Shaw buscava justamente criar essa complexidade sem precisar construir um recife artificial inteiramente do zero. Barcos que já não seriam utilizados passaram a cumprir essa função.
Depois de preparados e posicionados no fundo, os cascos passaram a funcionar como uma espécie de infraestrutura submarina.
O que acontece com um barco depois que ele afunda?
O processo não é imediato. A embarcação primeiro oferece novas superfícies e espaços em um local que antes tinha poucas estruturas.
Com o passar do tempo, organismos começam a ocupar o casco. Algas e outros seres marinhos podem se estabelecer nas superfícies, enquanto pequenos animais encontram proteção entre frestas, compartimentos e aberturas.
Essa ocupação inicial favorece a chegada de outras espécies. O barco deixa, assim, de ser apenas um objeto submerso e passa a integrar uma cadeia de relações dentro do ambiente. Essa sucessão que permite o desenvolvimento de um recife artificial.
Como os cascos mudam a vida no fundo do mar?
A principal diferença está na estrutura criada pelos barcos. Um fundo de areia é relativamente uniforme. Já uma embarcação acrescenta diferentes níveis, obstáculos, espaços fechados e áreas protegidas.
Entre os benefícios proporcionados pelas estruturas estão:
abrigo contra predadores;
superfícies para organismos se fixarem;
áreas protegidas das correntes;
esconderijos para peixes pequenos;
locais de alimentação;
novos espaços para diferentes espécies ocuparem.
A presença dessas estruturas também pode aumentar a diversidade de organismos em uma região que anteriormente oferecia menos opções de abrigo.
Por que os barcos podem funcionar como berçários?
Os peixes menores são especialmente vulneráveis a predadores. Por isso, ambientes com fendas, buracos e obstáculos podem representar uma vantagem para esses animais.
Um casco submerso reúne justamente esse tipo de espaço. Peixes jovens podem utilizar partes mais protegidas da estrutura enquanto organismos que vivem sobre o barco servem como fonte de alimento para outras espécies.
Quanto mais desenvolvida fica a comunidade ao redor do casco, mais relações ecológicas podem surgir naquele ponto.
O resultado é um ambiente que funciona quase como uma pequena vizinhança submarina: cada espécie encontra diferentes condições dentro e ao redor da estrutura.
O projeto começou com um barco e chegou a mais de 30
A criação do recife não aconteceu de uma só vez. Novas embarcações foram incorporadas ao longo dos anos, ampliando progressivamente a área ocupada pelas estruturas artificiais.
Com mais de 30 barcos no fundo do mar, o projeto passou a oferecer uma quantidade muito maior de superfícies e esconderijos do que existia originalmente naquele ambiente.
A transformação, porém, depende de tempo. Um barco recém-afundado não apresenta imediatamente a mesma riqueza de um recife estabelecido. A comunidade marinha se desenvolve à medida que os organismos ocupam o casco e atraem outras formas de vida.
Por que não basta jogar um barco no oceano?
Transformar uma embarcação em recife artificial exige preparação. O casco não pode simplesmente ser abandonado no mar.
Antes do afundamento, é necessário retirar substâncias e materiais que poderiam causar contaminação, como combustíveis, lubrificantes e equipamentos que possam se desprender.
Também é preciso avaliar onde a estrutura será colocada. Profundidade, correntes, estabilidade no fundo e proximidade de habitats naturais estão entre os fatores que precisam ser considerados.
A operação também deve levar em conta atividades humanas, como navegação e pesca.
De embarcações abandonadas a habitats submarinos
A experiência de Gibraltar mostra que uma estrutura criada pelo ser humano pode adquirir uma função completamente diferente depois de ser introduzida no ambiente marinho.
Os barcos não criam um ecossistema instantaneamente, mas fornecem a estrutura física para que a colonização aconteça ao longo do tempo.