O celular toca e, na tela, aparece o número de um banco, de um advogado, de uma empresa ou até de um órgão público. Ao atender, a pessoa ouve uma história aparentemente legítima, muitas vezes acompanhada de informações verdadeiras sobre sua vida, uma conta, um processo ou uma negociação. Quando percebe, surge o pedido de dinheiro — geralmente por Pix.
Esse tipo de abordagem utiliza o spoofing, recurso capaz de manipular a identificação apresentada em uma chamada para criar a impressão de que o contato vem de uma pessoa ou instituição conhecida. A técnica pode ser combinada com engenharia social, informações disponíveis na internet e ferramentas de inteligência artificial, deixando os golpes mais personalizados e difíceis de perceber.
Veja os tipos mais comuns de fraude virtual
Para Afonso Morais, advogado especialista em Direito Digital e fraudes digitais da Pardi e Morais Consultores Jurídicos, o primeiro ponto de atenção é justamente o número que aparece na tela. Ele não é uma prova de que a ligação realmente partiu daquela pessoa ou instituição. “O spoofing não precisa necessariamente roubar o número verdadeiro de uma pessoa ou instituição. Ele pode manipular a identificação que aparece para a vítima e, com isso, criar uma falsa sensação de que aquela ligação é legítima”, explica.
Como o golpe fica mais convincente
O criminoso pode combinar a identificação falsificada com informações reais para construir uma história que pareça familiar à vítima. Dados públicos de processos judiciais, por exemplo, podem ser usados por alguém que se apresenta como advogado ou representante de um escritório para dar aparência de legitimidade à conversa.
“O que torna esses golpes perigosos é a combinação de elementos verdadeiros e falsos. O criminoso pode conhecer o nome da pessoa, saber que ela tem determinado processo ou relacionamento com uma empresa e utilizar essas informações para construir uma história que parece fazer sentido”, afirma Afonso.
O risco aumenta quando a ligação termina em uma solicitação financeira. Pressionada pela urgência apresentada durante a conversa, a vítima pode fazer um Pix antes de confirmar quem realmente está do outro lado da chamada.
5 sinais de alerta durante uma ligação
Algumas situações devem fazer a pessoa interromper a conversa e verificar a informação por outro meio.
Entre os principais sinais estão:
- Pedido de transferência ou Pix durante uma ligação inesperada;
- Pressão para tomar uma decisão imediatamente;
- Solicitação de senhas, códigos ou outras informações sensíveis;
- Alegação de bloqueio de conta ou existência de um processo urgente;
- Orientação para continuar o atendimento por outro canal indicado pelo próprio interlocutor.
Um dos principais riscos está justamente na sensação de familiaridade. O fato de o interlocutor saber o nome da vítima, mencionar uma empresa com a qual ela realmente se relaciona ou apresentar um número conhecido não significa que a abordagem seja legítima.
O que fazer se receber uma ligação suspeita
A recomendação é não tentar confirmar a identidade do interlocutor usando a própria ligação. Se houver pedido de dinheiro ou de informações sensíveis, o ideal é desligar e procurar a instituição por um canal oficial e independente. Isso significa utilizar um telefone, aplicativo, site ou outro contato obtido previamente, e não um número fornecido durante a chamada. Dessa forma, a vítima consegue verificar se realmente existe uma solicitação, cobrança, processo ou problema relacionado à conta.
“A melhor defesa contra o spoofing é não permitir que a própria ligação seja responsável por validar a ligação. A informação precisa ser conferida por outro canal independente”, alerta Afonso Morais. O cuidado também vale para empresas. Criminosos podem utilizar não apenas números, mas marcas e identidades de instituições para tornar a fraude mais convincente. Por isso, a checagem independente deve fazer parte dos procedimentos de segurança sempre que uma abordagem envolver dinheiro ou dados sensíveis.
O spoofing, portanto, não significa simplesmente “clonar um telefone”. A técnica permite falsificar a identidade percebida pela vítima e fazer uma chamada criminosa parecer legítima. Com a evolução das ferramentas de inteligência artificial, confiar apenas no que aparece na tela do celular pode ser justamente o primeiro erro.