O jogo da indústria mundial, o “Brasil tem a melhor mão de cartas dos últimos 250 anos”. A frase do economista e executivo de transformação industrial Rafael Lucchesi norteou o primeiro eixo de debates da edição 2026 do Agenda Bahia, promovido pelo Correio, nesta quarta-feira (dia 12), no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB).
Ex-diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor-superintendente do Sesi, Lucchesi trouxe o tema “As Quatro Forças que Redesenham o Mundo: Tecnologia, Clima, Poder e Demografia”. Ele apontou como o Brasil, ainda que esteja atrás na disputa, tem todos os elementos favoráveis para desempenhar um papel de protagonismo na “nova normalidade” mundial.
“Nós temos a melhor combinação dos fatores de produção dos últimos 250 anos, desde a primeira revolução industrial. Energia limpa e abundante, diversidade de biotecnologia, a segunda maior reserva de minerais críticos e gente talentosa para discutir a questão da produtividade”, enumerou
Após um “boom” industrial entre 1930 e 1980, o processo de desindustrialização ganhou força muito cedo no Brasil. De acordo com o especialista, somente aqui houve a “única experiência histórica no mundo de um país que fez uma revolução industrial e não fez uma revolução educacional”.
“Nós vamos continuar pobres, como fornecedores de matéria-prima ou nós vamos para o andar de cima e vamos pensar em ter o produto, não o insumo?”, provocou.
A nível de comparação, Lucchesi apontou que em 1980, a produção industrial brasileira superava a soma da China e da Coreia do Sul. Atualmente, a indústria chinesa é 25 vezes maior que a do Brasil.
Travas e chaves
Durante o painel “A Nova Indústria Brasileira e os Desafios da Competitividade”, mediado por Isaac Edington, curador do Agenda Bahia e presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), os participantes apontaram entraves e caminhos para superá-los.
Além de Rafael Lucchesi, a mesa foi composta por Isabela Suarez, presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB); e Davi Ohlweiler, gerente de Manutenção e Confiabilidade da Braskem na Bahia. O grupo listou a insegurança jurídica e a deficiência na infraestrutura do país como dois dos principais vilões na atração de investimentos e desenvolvimento da indústria no país.
A presidente da ACB apontou a necessidade dos setores produtivos abrirem os olhos, não apenas para os “riscos visíveis”, como a necessidade da renovação das malhas aéreas e terrestres, mas também dos chamados “riscos invisíveis”, especialmente do ponto de vista jurídico, que afastam potenciais investimentos e impactam na perda de competitividade.
“Se há risco é mais caro. Principalmente para a atividade empresarial, você quer alguma previsibilidade. Como você não consegue ter essa previsibilidade, as coisas vão ficando mais difíceis. Se a gente não tem um ambiente regulatório claro, a incerteza passa a interferir diretamente no nosso vetor econômico”, apontou Isabela Suarez.
Na mesma linha, Davi Ohlweiler apontou ainda que o elevado custo de capital necessário na área industrial, sobretudo para as pequenas e médias empresas é um entrave. No caso da indústria química, fundamental para a economia baiana, em um cenário de 40% de ociosidade industrial, são as empresas estrangeiras que estão se valendo das brechas do mercado para se instalar no país, gerando problemas para quem produz internamente, lembrou.
“Isso faz com que a riqueza da cadeia como um todo, em vez de estar sendo gerada dentro do país, seja gerada fora”, aponta. Para esse cenário, Ohlweiler sugere uma solução. “Eu penso que, nesse sentido, medidas protetivas e comerciais são necessárias. Especialmente em períodos de baixa em que a gente tem margens mais apertadas e mais comprimidas”, como as aplicadas nos EUA e na Europa.
Isabela Suarez ainda falou da necessidade do reagrupamento do setor empresarial para que haja uma remontada: “a gente ainda precisa evoluir no nosso ambiente empresarial. E a gente não vai fazer isso se a sociedade empresária não se movimentar, não se reagrupar. A gente está em um compasso interessante e de sinergia de ideias, mas a gente precisa ainda seguir reagrupando cada vez mais o setor”.
Futuro
O trio ainda destacou outra tendência para o presente e futuro, não só no Brasil, mas também em todo o mundo: transição energética. Em um planeta onde há uma emergência climática em curso, a chamada energia verde, menos poluente e mais aproveitável, do ponto de vista energético e de custos, já está sendo fator determinante no cenário mundial.
Do ponto de vista da inovação tecnológica, Lucchesi trouxe um fator importante que precisa ser aplicado: “qualificação de mão-de-obra”. Segundo ele, a indústria acabou se afastando dos centros de educação ao longo do tempo e já não parece ser uma opção tão atrativa para os jovens talentos.
Tão importante quanto, há uma necessidade de se fazer investimentos em inovação, como IA e Machine Learning, dentro da produção industrial. Utilizando o exemplo da Braskem, Ohlweiler trouxe que houve um aumento na confiabilidade das operações, bem como a segurança dos processos; tudo isso visando reduzir os custos: “Eu consigo reduzir falhas, reduzo indisponibilidade, perda de produção e, portanto, reduzo o custo de produção”.
Reforçando a importância do setor industrial, os convidados apontaram que o Polo Petroquímico de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador é um “ativo vital” na indústria do país, sendo responsável por 22% do PIB da indústria de transformação baiana. No Brasil, o setor industrial representa quase 25% do PIB, e gera mais de 11 milhões de empregos.
Em uma mesa de jogo mundial e cada vez mais difícil, desperdiçar “a melhor mão” em séculos é um erro que não pode acontecer, mas que também não será definido de uma hora para outra. É um jogo que “precisa ser jogado”, para que o Brasil possa deixar de ser o país do futuro e se tornar o país do presente.
O Agenda Bahia é uma realização do jornal Correio, com patrocínio da Acelen, Echoenergia e Unipar, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, apoio da Braskem, FIEB, Plano Brasil Saúde, Salvador Bahia Airport, Sebrae e Sotero, e parceria da Claro.