Há 40 anos, numa noite qualquer de 1986, um adolescente introspectivo e idealista de 16 anos chegou em casa com um disco nas mãos. Na capa bege estava escrito apenas o nome da banda e o título do álbum: Legião Urbana – Dois. Ele pôs o disco no três-em-um Polyvox, que ficava na sala do apartamento onde morava com os pais e os irmãos, apagou a luz e ouviu o ruído da agulha deslizando sobre o vinil. Então se deixou arrebatar por versos como “A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos” e “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. Esse adolescente, claro, era eu.
Algo se descortinava naquela noite, embora não soubesse o quê. Talvez uma ânsia pelo desconhecido, uma inclinação pelo romantismo pueril contido naqueles versos ou mesmo uma valorosa sensação de cumplicidade. Por vezes, meu pai reclamava lá do quarto, pedindo que abaixasse o volume, e interrompia meus devaneios. Eu gostava da sonoridade acústica do disco, mas ainda não sabia que a banda bebia da fonte do que vinha de fora: The Smiths, Joy Division e outras que desconhecia. Mais do que um assombro intelectual, a audição tinha um componente sensorial.
As canções se sucediam: “Teu corpo é o meu espelho e em ti navego. E sei que tua correnteza não tem direção”. Havia ali uma clara referência homoerótica da qual não me dei conta, assim como ignorei as simbologias e metáforas existenciais e políticas em sequência. Eu não sabia quase nada, embora achasse que sabia tudo. Era um garoto bem nascido que gostava de ir à praia, ler romances de García Márquez e poemas de Bertolt Brecht e ouvir muito rock nacional: RPM, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e tantos nomes esdrúxulos que faziam a minha cabeça e que abandonei sem culpa nas décadas seguintes.
Eram a trilha sonora dos anos de Diretas Já, das roupas coloridas e dos penteados ridículos. Anos da aids também. “Há tempos são os jovens que adoecem e o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos”. Cazuza morreria dali a alguns anos. Renato Russo iria um pouco depois. A doença varreu meio mundo de gente e deixou os sobreviventes acuados, deprimidos, temerosos. Todas as conquistas da revolução sexual pareciam cair por terra. A caretice emergia. E eu mal começara a decifrar os mecanismos do desejo.
Em 1986, o mundo parecia em suspensão. Vivíamos num limbo sem sobressaltos: a Guerra Fria se encaminhava para o esquecimento e por aqui havia um arremedo de democracia. Impossível cultivar utopias, embora houvesse ainda a sedução do ideário socialista – do qual o mais perto que cheguei foi uma camisa com estampa de Che Guevara e uma foto com a bandeira do PCdoB. O Muro de Berlim implodiria dali a três anos e havia uma convulsão silenciosa em curso. Sequer imaginávamos que nossas escolhas ideológicas, ainda tão incipientes, já eram anacrônicas.
Esses anos de formação não transcorreram em céu de brigadeiro: eu vivia embebido em um dilacerante sentimento de inadequação e me sentia despreparado para o que a vida adulta me reservava. As canções da Legião Urbana tiveram um papel importante nesse processo de autodescoberta – que ainda não terminou. Elas traziam um componente ético, um senso de decência e uma sinceridade que, a despeito de toda indigência poética e melódica, contribuíram para fazer de mim um adolescente menos cínico e egoísta.
Os anos correram como um guepardo. O jovem tímido se converteu no homem de 56 anos que agora observa a lua cheia da varanda, escreve esta crônica e escuta o mesmo disco daquela noite de 1986. Já não coloco o vinil no toca-discos, apenas ponho o Spotify para trabalhar. O mais curioso é perceber o quanto essas reminiscências permanecem vívidas. Como se o menino de 16 anos fosse um vizinho que eu encontrasse de tempos em tempos no elevador. As canções – que raramente ouço – me trazem um sentimento agridoce. Nostalgia da urgência daqueles dias, das paixões não correspondidas, de saber que havia décadas pela frente.
Sou transportado de novo para o passado. Recordo os shows da Legião no Bahiano de Tênis, na Concha Acústica, no Centro de Convenções. Recordo a tarde em que um velho e bom amigo chegou lá em casa com a fita cassete na qual ele gravara o terceiro disco da banda, pelo qual ansiávamos e que ainda não havia chegado nas lojas. Agachados junto ao som, ouvimos aquelas canções que faziam o nosso mundo se expandir: Eu Sei, Faroeste Caboclo, Angra dos Reis, Mais do Mesmo. “Somos pássaro novo longe do ninho”. Saudade, saudade. E foi outro dia.