Lanchas que trafegam muito perto de banhistas, barcos a vela e motos aquáticas que circulam entre os frequentadores do mar e embarcações que puxam pranchas foil se multiplicando. Esse é o cenário que fez com que um grupo de surfistas da praia do Farol da Barra se reunisse para fazer um alerta antes do verão. De acordo com a Associação dos Surfistas da Barra, a situação é preocupante e as queixas de famílias têm aumentado à medida que o comportamento de quem trafega com esses equipamentos parece ameaçar mais a segurança.
"Já aconteceu de machucar gente e já aconteceu um óbito há cerca de dois anos, porque essa queixa vem de muito tempo. A gente pedia e a galera não respeitava", conta o presidente da entidade, Danilo Reis, que é ex-surfista profissional e diretor regional da Federação Baiana de Surf. "A galera se juntou aqui para tomar uma atitude, porque só falando, pedindo e mandando mensagem não vai adiantar", explica, referindo-se a uma live feita no perfil da associação, no início do mês. Na semana passada, a entidade, que representa cerca de 300 surfistas na Barra, fez uma assembleia para debater o tema.
Surfistas alertam para risco de lanchas e motos aquáticas perto de banhistas no Farol da Barra
A mobilização ocorre em um momento em que a prefeitura de Salvador tem desenvolvido projetos de áreas exclusivas para banhistas justamente para aumentar a segurança de banhistas e reduzir o risco de acidentes com embarcações motorizadas. O projeto piloto começou a ser implementado na praia do Porto da Barra, no início do mês, mas pode ser ampliado para outras localidades da Orla, como o CORREIO antecipou.
Para Danilo, já é possível ver diferença na praia do Porto. "Achei maravilhoso, porque é uma proteção muito positiva. O Porto merecia isso porque, lá, eles (embarcações) encostavam, não respeitavam ninguém. O pessoal invadia mesmo. Não tem como combinar banhista e lanchas no meio. Ali é uma área de lazer para os frequentadores se divertirem", explica.
Segundo ele, esse tipo de postura foi crescendo nos últimos anos, mesmo que a praia do Farol da Barra seja um local tradicional de prática de surf e longboard em Salvador, desde os anos 1970. Hoje, Reis diz temer pela própria segurança, bem como pelo bem-estar de outros surfistas e pessoas que estão iniciando no esporte. Ali, há pelo menos cinco professores que dão aulas para iniciantes.
O foil, por exemplo, surgiu no fim da primeira década dos anos 2000, quando o australiano Brett Curtis construiu o primeiro aerobarco com hidrofólio inclinado. No entanto, os modelos foram sendo adaptados e só se tornaram populares nos últimos anos. Em pouco tempo, foram disseminados em todo o mundo.
"A galera perdeu a noção do perigo e está indo com esses barcos e lanchas para lá. É um espaço pequeno, que a onda só sobe no mesmo lugar. Fica uma multidão de surfistas e os caras passando a meio metro da pessoa. Se não tomarmos nenhuma providência, futuramente algo pode drástico pode acontecer", alerta.
De acordo com Danilo Reis, a associação chegou a receber críticas em redes sociais, com mensagens ofensivas. "O mar é para todos. Nós não somos donos do mar. O mar é que nem a nossa casa. Estamos cuidando por um contexto geral e a gente ama todo tipo de esporte, que é saúde, vida. Mas a gente não vai abrir mão de cuidar e proteger o que é nosso".
A Associação dos Surfistas da Barra deu início ao diálogo com a prefeitura. Representantes dos surfistas já até se reuniram com a secretária do Mar, Duda Lomanto, para debater possíveis saídas.
Área exclusiva
Veja como ficou o Porto da Barra após a instalação de boias para delimitação de área exclusiva para banhistas
No Porto da Barra, o projeto de área exclusiva delimitou uma área a 90 metros da faixa de areia que será apenas dos banhistas. Para isso, duas poitas – bases de concreto para a sustentação das boias -, foram instaladas na faixa de areia. O perímetro tem formato de 'U' e usa cinco poitas, sendo que duas delas na faixa da areia e as outras três no mar. As boias, por sua vez, são transpassadas por um cabo de aço, formando um cordão de isolamento.
O programa prevê, ainda, a requalificação nas rampas de acesso ao Porto. Hoje, muitos pedestres usam a rampa que é destinada a embarcações. Placas informativas devem ser instaladas no local para indicar que uma das rampas é para pedestres e outra é para embarcações. Câmeras de segurança também acompanham a movimentação em tempo real.