O soldado Medeiros se voluntariou em Cachoeira (BA) em 1822, junto a diversos homens que estavam pegando em armas para garantir as ordens imperiais. A quilômetros dali, D. Pedro I proclamava a independência e seriam aqueles homens que ajudariam a mantê-la.
Porém, havia algo diferente em Medeiros, pois ele não existia. Debaixo da roupa emprestada do cunhado estava Maria Quitéria de Jesus, uma baiana de 30 anos que havia decidido fazer algo quase impensável para uma mulher do século 19: ir à guerra.
Independência do Brasil no Nordeste
A mulher que disse não
Maria Quitéria nasceu em 1792, na região de São José das Itapororocas, território que hoje pertence a Feira de Santana. Cresceu no mundo rural, onde aprendeu habilidades que mais tarde se tornariam inesperadamente úteis: montar a cavalo, caçar e atirar.
Então a guerra bateu à porta em setembro de 1822. Um emissário chegou à fazenda da família procurando homens dispostos a integrar as forças que combatiam os portugueses na Bahia. Quitéria ouviu falar da mobilização e decidiu que também queria participar.
Seu pai recusou. A discussão poderia ter encerrado a história de acordo com as regras daquele tempo. Não encerrou.
Quitéria procurou a irmã, conseguiu roupas do cunhado, José Cordeiro de Medeiros, vestiu-se como homem e partiu. Com as roupas dele e o seu sobrenome, a Maria desapareceu, e no seu lugar surgiu o soldado Medeiros.
Descoberta de Maria
Apesar de conseguir se alistar e até começar o seu treinamento nas Forças Armadas, o disfarce não durou muito tempo. Poucas semanas depois, a verdade bateu às portas do quartel na forma de seu pai.
Gonçalo Alves de Almeida ouviu os rumores de que sua filha tinha se alistado disfarçada e foi até Cachoeira procurá-la. Não demorou muito até o homem reconhecê-la em meio aos soldados, denunciou sua identidade ao major José Antônio e exigiu sua volta para casa.
Porém, o oficial militar resistiu a dispensá-la, pois a mulher havia apresentado grande perícia durante o treinamento. Mesmo com as reclamações do pai, Quitéria continuou integrada ao exército, mas agora oficialmente como mulher.
Há uma pequena divergência nas fontes sobre a sequência exata. Um estudo publicado pela Comissão Portuguesa de História Militar afirma que alguns companheiros de pelotão já teriam percebido que ela era mulher antes da chegada do pai.
A guerra continuava
Apesar da impressão de que a independência foi pacífica, na Bahia, os conflitos se estenderam por meses. Quitéria participou de combates e operações na Ilha de Maré, Barra do Paraguaçu, Pituba e Itapuã.
A documentação oficial registra que sua atuação foi suficientemente destacada para que recebesse as honras de primeiro-cadete. E a trajetória avançou mais um passo improvável.
Depois que sua identidade se tornou conhecida, outras mulheres passaram a integrar a resistência, e registros oficiais do bicentenário da Independência atribuem a Maria Quitéria o comando de um grupo feminino.
Em 2 de julho de 1823, as forças portuguesas finalmente deixaram Salvador. Quitéria entrou na cidade com os vencedores.
Diante do imperador
Em 20 de agosto de 1823, D. Pedro I concedeu a ela a Insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro, além do soldo de alferes. O Arquivo Nacional preserva o registro do reconhecimento imperial, que menciona a coragem demonstrada por Quitéria.
Segundo os registros históricos, no mesmo encontro com o imperador, Quitéria teria feito um pedido inusitado a D. Pedro. Ela pediu-lhe que fizesse uma carta ansiando pelo perdão do pai para com a filha por ela ter fugido de casa.
Depois da guerra
De volta à Bahia, Quitéria retomou uma vida civil. Casou-se e teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Apesar dos registros escassos, é possível saber que ela viveu principalmente entre a região de Feira de Santana e, mais tarde, Salvador.
Após a morte do pai, em 1834, ela tentou receber a parte que lhe caberia na herança, mas acabou envolvida em disputas familiares e abandonou o processo. E, para além disso, também acabou ficando viúva, o que lhe fez abandonar Feira de Santana.
Nos anos seguintes, mudou-se com a filha para Salvador, onde passou a viver de maneira modesta e longe da notoriedade que alcançara como combatente. Algumas fontes relatam que, no fim da vida, estava quase cega e dependia do soldo de alferes.
Maria Quitéria morreu em 21 de agosto de 1853, em Salvador, aos cerca de 61 anos. A Biblioteca Nacional atribui a morte a uma doença no fígado.