A Reforma Tributária já começou a sair dos textos legais para entrar na rotina das empresas. Na Bahia, onde predominam pequenos negócios e há forte participação dos setores de serviços, comércio, turismo e alimentação, a transição para o novo modelo de tributação do consumo exige mais do que acompanhar mudanças na legislação: será necessário revisar processos, sistemas, preços, contratos e fluxo de caixa.
Um dos primeiros impactos concretos ocorre agora, em setembro. Pela primeira vez, a opção pelo Simples Nacional para o ano seguinte deixa de ser feita em janeiro. Empresas que desejam ingressar no regime em 2027 têm até 30 de setembro de 2026 para formalizar a escolha. No mesmo período, empresas optantes ou que fizerem a opção pelo Simples precisam avaliar como pretendem recolher o IBS e a CBS em 2027. A mudança transforma setembro em um período estratégico.
Para Paulo Netto, CEO da Hub Nexxo, especializada em contabilidade para restaurantes, esperar o próximo ano para começar a analisar os efeitos da reforma pode significar perder tempo importante de preparação.
Segundo o especialista, a decisão precisa considerar os números reais de cada empresa. Faturamento, margem de lucro, folha de pagamento, despesas, perfil dos clientes e volume de insumos tributados estão entre os fatores que podem alterar o resultado de uma escolha.
Janela aberta
A mudança no calendário não significa apenas antecipar uma formalidade. Para empresas do Simples Nacional, surge também a possibilidade de permanecer no regime e, ao mesmo tempo, recolher IBS e CBS pelo regime regular, fora da sistemática unificada. A opção para o primeiro semestre de 2027 deve ser analisada dentro da janela aberta em setembro.
Na avaliação de Netto, quatro indicadores merecem atenção especial. O primeiro é a relação entre faturamento e margem. O segundo é o perfil dos clientes, especialmente quando a empresa vende para outras empresas que valorizam o aproveitamento de créditos tributários. O terceiro é o peso da folha de pagamento. O quarto é o volume de insumos tributados adquiridos pelo negócio.
A lógica é particularmente relevante para empresas que atuam no mercado B2B. Um negócio que vende majoritariamente para outras empresas pode enfrentar impactos diferentes de uma empresa voltada ao consumidor final, justamente por causa da dinâmica de créditos tributários.
“O maior risco não é escolher errado. É não escolher”, afirma Netto. Para ele, também é preciso evitar o movimento contrário: migrar para uma estrutura mais complexa sem ter capacidade administrativa e contábil para fazer a apuração corretamente.
Adequação
O impacto da reforma não será necessariamente igual entre empresas do mesmo setor. Na Bahia, a diferença pode estar menos na localização e mais no grau de estrutura de cada negócio. Uma empresa sediada em Salvador pode contar com ERP, indicadores financeiros, equipe contábil e consultoria especializada. Uma pequena empresa no interior pode ter uma operação eficiente, mas trabalhar com uma estrutura administrativa mais enxuta.
“O que vai fazer diferença é o nível de preparação. Não necessariamente sofrerá mais quem está no interior. Sofrerá mais quem chegar a 2027 sem cadastro adequado, números confiáveis, simulação tributária e integração entre empresa, contador e tecnologia”, afirma o especialista.
Ao mesmo tempo, a digitalização pode reduzir parte dessa distância. Ferramentas de gestão, contabilidade especializada e soluções tributárias estão cada vez mais acessíveis a empresas fora dos grandes centros.
Nesse cenário, a reforma cria uma pressão adicional pela profissionalização da gestão. A capacidade de organizar informações e transformar dados em decisões pode se tornar tão importante quanto acompanhar a própria legislação. A estrutura econômica de cada atividade também será determinante.
De acordo com Netto, negócios cuja operação depende principalmente de mão de obra tendem a ter uma dinâmica diferente daqueles que compram grandes volumes de insumos tributados. Comércio e indústria, por exemplo, trabalham com cadeias de aquisição de produtos e insumos que podem gerar créditos, mas terão de enfrentar desde cedo desafios de adaptação de sistemas, cadastros e processos. Já empresas de serviços, que têm menor volume de insumos tributados, podem sentir de forma mais direta os efeitos sobre suas margens. Na Bahia, esse ponto ganha relevância diante do peso dos serviços na economia.
Turismo, alimentação fora do lar e outros segmentos intensivos em pagamentos eletrônicos também precisarão acompanhar de perto a mudança na dinâmica financeira.
A legislação estabelece tratamento específico para determinados setores. No caso de bares e restaurantes, por exemplo, a Lei Complementar nº 214 prevê redução de 40% nas alíquotas do IBS e da CBS para as operações enquadradas no regime específico.
Segundo Netto, sistemas de gestão e emissão fiscal precisam estar preparados para os novos layouts e informações tributárias.
A própria Receita diz que 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS, com alíquotas de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS, dentro da sistemática de transição. A implementação seguirá de forma gradual nos anos seguintes, até a vigência integral do novo modelo em 2033.
Na prática, isso significa conviver durante alguns anos com regras e tributos diferentes em paralelo. Para atravessar esse período, a recomendação é manter a contabilidade atualizada, acompanhar as regulamentações e trabalhar com simulações próprias antes das decisões que afetem o negócio.